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Futebol ao sol e à sombra: o consumidor da bola

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             Por Diego Ghiringhelli de Azevedo – Coordenador da ESDC/RS

             Pego emprestado para compor o título desde artigo o nome de um dos livros de Eduardo Galeano, que se diz um mendigo do bom futebol, andando pelo mundo de chapéu na mão a suplicar por uma linda jogada. A certa altura ele afirma que o jogo se transformou em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos espectadores, futebol para olhar, e o espetáculo se transformou num dos negócios mais lucrativos do mundo.

            O livro foi escrito em 1995, talvez por isso ainda Galeano tenha se referido a muitos espectadores. A isso pretendo tecer algumas considerações, uma vez que nas últimas décadas a situação já não é a mesma.

            À época ainda no Brasil não tínhamos as novas arenas, especialmente construídas para a realização da Copa do Mundo de 2014 (aquela do fatídico 7 a 1). A partir dali toma corpo um processo de elitização do futebol. Algo que Michael Sandel, professor de Harvard, chama de camarotização da vida, em seu livro “O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado”. Um exemplo pessoal trazido por ele – para que não saiamos do tema dos esportes – é o de quando costumava ir aos jogos de beisebol em Minnesota na década de 60. Segundo ele, a diferença entre o preço dos assentos mais caros e os mais baratos era de dois dólares.

            A essa realidade – que não se limita ao mundo dos grandes eventos esportivos, estando presente na sociedade como um todo – o autor aponta inúmeras consequências, como a corrosão de um espírito cívico, a marquetização, e um abalo na própria democracia ao não se compartilhar uma vida comum.

            O referido processo, no que diz respeito ao futebol brasileiro, já se encontra em uma segunda etapa, para além do encarecimento dos preços de acesso aos estádios. Me refiro ao acesso à transmissão dos jogos. Da televisão aberta para os canais fechados; destes para o pay per view; e, agora, destes para o streaming. Exemplo disso são as competições sul-americanas. Para acompanhar o time o torcedor necessita adquirir o serviço oferecido pela Conmebol TV, pagando uma mensalidade, uma vez que cada vez menos jogos são transmitidos nos canais fechados e na TV aberta.

            É um claro afastamento do público consumidor do futebol, antes dos estádios, do espetáculo in loco, agora da sua transmissão. Uma parte de nossa cultura local cada vez menos visível, especialmente às crianças. Paradoxalmente os jogos de torneios europeus passam a ser mais acessíveis, fazendo com que encontremos mais camisetas dos times de lá do que dos da nossa própria cidade. É, portanto, Galeano, um futebol cada vez mais à sombra.

 

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